Pimenta de Ávila: tecnologia e inovação que definiram a segurança para a disposição de rejeitos da mineração

Fundador da PdA narra a trajetória que começou com rejeitos secando graças à luz solar e chegou aos filtros prensa atuais

Por Conexão Mineral 01/09/2026 - 20:18 hs

Pimenta de Ávila: tecnologia e inovação que definiram a segurança para a disposição de rejeitos da mineração
Joaquim Pimenta de Ávila, fundador da PdA

A Pimenta de Ávila (PdA) é uma empresa especializada em Geotecnia, Recursos Hídricos e Meio Ambiente com cerca de 30 anos de experiência aplicados à mineração, indústria, geração de energia e abastecimento de água, que desenvolveu serviços e soluções em engenharia de barragens. A empresa elabora estudos, projetos, acompanhamento técnico de obras, análises de riscos, monitoramento e inspeções e análises de segurança de barragens para acumulação de água, rejeitos e estéreis para unidades minerais.

Um dos destaques da PdA  é o Sysdam, ferramenta de gestão de segurança criada pelos profissionais da empresa para atendimento de todas as necessidades de controle de segurança de barragens. Com procedimentos próprios desenvolvidos para os seus projetos, baseados na experiência de sua equipe e nas melhores tecnologias e práticas de engenharia de barragens, desde 2007 é certificada na norma ISO 9001 pela DNV.

Na origem da empresa está o seu fundador, Joaquim Pimenta de Ávila, MSc., que desde 1989 atua como Engenheiro Consultor da Pimenta de Ávila e atualmente é o presidente do Conselho Societário. Com mais de 45 anos de experiência em trabalhos geotécnicos multidisciplinares, com atuação no Brasil e no Exterior, é o representante brasileiro no Comitê Técnico de Barragem de Rejeitos do ICOLD – International Commission on Large Dams, e atualmente ocupa a posição de Vice-Presidente do ICOLD para as Américas.

Joaquim Pimenta de Ávila é graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Minas Gerais (1970) e mestre em Engenharia de Solo pela Escola Politécnica da USP, 1981. Foi Engenheiro Chefe da Divisão de Barragens na Promon Engenharia S.A – São Paulo – SP (1976 – 1978). Engenheiro Chefe do Departamento de Geotecnia na IESA – Internacional de Engenharia – Rio de Janeiro – RJ (1978 – 1982), Diretor de Engenharia da Engerio – Rio de Janeiro – RJ e Professor de Engenharia de Barragens da UFOP de 1989 a 1997.

Confira a seguir a entrevista para a Conexão Mineral durante a Exposibram 2026.

Conexão Mineral - O senhor já atua nesse mercado há bastante tempo e acompanhou de perto uma grande evolução tecnológica na engenharia voltada à infraestrutura e indústria mineral. Olhando para o segmento hoje, o que o senhor considera como a principal evolução e o grande diferencial tecnológico que vivenciamos nos últimos anos?

Joaquim Pimenta de Ávila - Eu trabalho bastante com mineração. Dentro dessa área, a maior evolução recente foi no campo de disposição de rejeitos. Essa transformação ocorreu não apenas pelos avanços tecnológicos em si, mas também impulsionada pelos graves acidentes que despertaram o clamor da sociedade por soluções mais seguras.

A mudança mais evidente é a substituição das barragens por pilhas de rejeitos. Isso ocorre porque as barragens acumulam muita água, que é o elemento responsável por instabilizar a estrutura. Já a pilha consiste em retirar a água do rejeito e empilhá-lo de forma segura. Essa transição demorou um pouco para se generalizar como prática de mercado. Em 2011, por exemplo, eu elaborei um trabalho intitulado "Disposição de rejeito sem barragens", no qual eu já demonstrava as vantagens de substituir as barragens por pilhas de rejeito desaguado devido à remoção desse elemento desestabilizador que é a água.

Conexão Mineral - Como foi o início do desenvolvimento dessas tecnologias de desaguamento de rejeitos na sua trajetória?

Joaquim Pimenta de Ávila - As minhas primeiras experiências remontam a 1992, na Mineração Rio do Norte (MRN), em Porto Trombetas. Naquela época, após concluir meus estudos, propus um sistema de disposição em que o rejeito era desaguado sob a luz solar, por evaporação natural. Cada camada levava cerca de um mês para a água evaporar por completo.

Com o tempo, o processo evoluiu para métodos de desaguamento acelerado que não dependiam exclusivamente do sol. Foi quando surgiram os filtros, principalmente o filtro prensa, cuja tecnologia hoje é amplamente procurada no setor.

Conexão Mineral - No início, houve resistência do mercado para a adoção desses filtros?

Joaquim Pimenta de Ávila - Sim. Nos primeiros projetos que desenvolvi com filtro prensa, a grande dificuldade foi demonstrar às empresas que, embora fosse um sistema mais caro inicialmente, o investimento valia a pena. Hoje, o mercado já compreendeu que, na verdade, é uma solução extremamente barata.

Tivemos uma experiência pioneira e muito afortunada na Alunorte, em Barcarena, onde o rejeito provém da fabricação de alumina. A água desse rejeito continha uma alta concentração de soda cáustica, que é uma matéria-prima essencial que entra no processo junto com a bauxita. Descobrimos que o filtro prensa recuperava essa água rica em soda cáustica, permitindo que ela retornasse ao processo industrial. Essa economia de matéria-prima compensou inteiramente os custos do filtro prensa, tornando o projeto altamente vantajoso.

Levamos três anos de pesquisas para consolidar esse modelo. Depois, precisei de mais três anos porque a fábrica de alumina foi vendida, e o novo proprietário não acreditava nos resultados dos estudos anteriores. 

A grande evolução do setor foi, portanto, aprender a retirar a água do rejeito. Inicialmente utilizávamos a luz solar, passamos pelo filtro de tambor — que retira menos água por ter menor capacidade de sucção — e consolidamos o filtro prensa, que aplica maior esforço físico para desaguamento. O projeto da Hydro na Alunorte com pilha de rejeito filtrado é um grande exemplo de sucesso e excelente desempenho.

Hoje, o rejeito desaguado e filtrado pode ser compactado com terra da mesma forma que se constrói uma barragem de solo convencional. É uma visão e uma utilização completamente diferentes do passado, quando não havia tecnologia e muito minério era simplesmente descartado. Atualmente, esse rejeito é reprocessado e empilhado com segurança, o que também aqueceu o mercado para os fabricantes de filtros prensa.

Conexão Mineral - Além da disposição dos rejeitos, a área de monitoramento e controle de segurança das estruturas também passou por grandes transformações digitais. Como o senhor avalia essa evolução?

Joaquim Pimenta de Ávila - O avanço é extraordinário. Hoje nós temos sistemas como o Sysdam, uma plataforma digital que automatiza uma série de análises de segurança de barragens — aplicável tanto para mineração quanto para barragens de água. O sistema recebe dados diretamente da instrumentação de campo, processa as informações e gera automaticamente os gráficos de monitoramento, mostrando claramente as faixas de aceitabilidade da estrutura. Ele nos diz imediatamente se a barragem está em condições adequadas ou não.

No passado, eu gastava cerca de dez dias para coletar dados manualmente, analisar gráficos e emitir o diagnóstico de segurança de uma barragem. Com o Sysdam, eu consigo realizar esse mesmo diagnóstico em apenas dez horas, com um nível de confiança e precisão imensamente maior.

Conexão Mineral - E esse ganho de tempo e precisão mitiga também erros de análise que poderiam comprometer a segurança, correto?

Joaquim Pimenta de Ávila - Exatamente. Antigamente, a inserção manual de um dado incorreto podia gerar uma leitura completamente inadequada da segurança da estrutura. Hoje, a automação insere os dados diretamente na análise de risco, proporcionando uma enorme comodidade e, acima de tudo, confiabilidade técnica.

Essa segurança é vital para o setor. Os rompimentos de barragens abalaram profundamente o prestígio da mineração perante a sociedade, além do impacto inestimável sobre as famílias. Com plataformas digitais de monitoramento, o setor recupera a condição de dialogar de forma transparente com a sociedade, fornecendo gráficos e informações em tempo real que atestam a segurança das operações.

Conexão Mineral - O senhor iniciou sua carreira em uma época sem internet ou computadores pessoais acessíveis. Como compara aquela realidade com a facilidade e velocidade que a tecnologia oferece hoje?

Joaquim Pimenta de Ávila - A evolução tecnológica foi exponencial. No início, o computador era de uso muito restrito e não tínhamos internet. Hoje, um celular moderno na palma da mão tem capacidade de processamento equivalente ou superior à de um mainframe IBM daquela época nas escolas de engenharia. Isso nos permite acessar e analisar dados vitais em questão de minutos.

Conexão Mineral - E como nasceu a ideia de criar uma empresa?

Joaquim Pimenta de Ávila - Eu sou engenheiro civil formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Fiz mestrado na Escola Politécnica da USP, em São Paulo. Lecionei durante bastante tempo na pós-graduação em Ouro Preto e atuei por 20 anos em empresas de projeto.

Após essas duas décadas de experiência, decidi abrir minha própria consultoria, a Pimenta de Ávila. Minha motivação inicial era o desejo de trabalhar de forma autônoma, sem chefes nem subordinados. No entanto, a empresa cresceu e hoje contamos com cerca de 250 colaboradores. É uma trajetória longa e muito gratificante.