Minerais críticos: o avanço da disputa global e o papel da engenharia brasileira
Por Marcio Tannure*
A corrida global por minerais críticos revela uma transformação estrutural no setor mineral brasileiro. O fenômeno central não é apenas a expansão das grandes mineradoras, mas a entrada acelerada de junior miners estrangeiras em fases iniciais de prospecção. Essas empresas chegam ao Brasil atraídas pelo potencial geológico do país, pelo avanço da transição energética e pela crescente demanda global por matérias-primas estratégicas. O desafio, porém, começa quando é preciso transformar reservas minerais em operações industriais viáveis. Nesse contexto, a engenharia brasileira tem assumido papel decisivo ao viabilizar a trajetória desses projetos.
O Brasil consolidou-se como uma das maiores fronteiras minerais do mundo. No caso das terras raras, estudos do Centro Brasileiro de Relações Internacionais indicam que o país detém cerca de 23,1% dos recursos globais conhecidos, com potencial para alcançar aproximadamente 20% da produção mundial até 2040, desde que desenvolva capacidade de processamento, hoje o principal gargalo global.
No lítio, dados compilados a partir do United States Geological Survey (USGS) e órgãos oficiais apontam que o Vale do Jequitinhonha já figura entre as maiores províncias minerais do planeta. O ecossistema brasileiro atingiu produção recorde em 2024, consolidando uma expansão de quase quatro vezes nos últimos anos, com 97% de suas exportações direcionadas à China. O país asiático domina o refino químico final, capturando a maior parcela do valor agregado na cadeia global de baterias.
Esse movimento é impulsionado pela transição energética global. A Agência Internacional de Energia estima que a demanda por minerais críticos pode quadruplicar até 2040, impulsionada pela eletrificação da mobilidade, pela expansão das energias renováveis e pela digitalização. A descarbonização reorganiza cadeias produtivas, redefine prioridades industriais e intensifica a disputa por insumos estratégicos. O Brasil, com reservas abundantes e estabilidade geológica, ocupa posição singular.
Para investidores e junior miners, entretanto, encontrar o minério é apenas o primeiro passo. A verdadeira dificuldade está em converter potencial geológico em projetos que consigam ser licenciados, construídos e operados de forma competitiva.
As empresas que chegam ao país rapidamente descobrem que operar aqui é substancialmente mais complexo do que em seus mercados de origem. O país combina um arcabouço ambiental complexo e rigoroso, normas de segurança específicas, exigências regulatórias heterogêneas entre estados e uma cultura de obra própria. Soma-se a isso a volatilidade macroeconômica e o custo de capital elevado, fatores que afetam diretamente decisões de investimento.
Quando o custo de capital aumenta, o impacto não se limita ao volume de investimentos: compromete a robustez dos projetos, eleva riscos operacionais e aumenta a vulnerabilidade dos cronogramas. Em mineração, isso significa plantas menos resilientes, menor tolerância a desvios e maior probabilidade de atrasos. Sem estrutura local, governança adequada e tecnologia madura, muitos projetos não avançam sequer para a fase de implantação.
Além desses desafios, existe uma barreira tecnológica que limita a competitividade da mineração nacional. O Brasil domina o upstream, mas ainda precisa avançar no midstream e downstream, especialmente em etapas como separação química, purificação, metalurgia avançada, produção de ímãs permanentes e fabricação de componentes industriais.
No caso das terras raras, a China controla mais de 70% do processamento global e 94% do mercado de ímãs permanentes. Parte das tecnologias utilizadas no país asiático não pode ser replicada diretamente no Brasil devido à geração de resíduos radioativos, o que exige soluções próprias, engenharia de processos adaptada e inovação local.
É justamente nesse momento que a engenharia brasileira passa a desempenhar papel decisivo. As dificuldades enfrentadas pelas junior miners raramente estão relacionadas à existência das reservas minerais. Elas surgem na etapa de transformar essas reservas em empreendimentos capazes de operar com segurança, previsibilidade e retorno econômico. O obstáculo deixa de ser geológico e passa a ser técnico, regulatório e operacional.
É nesse ponto que as empresas brasileiras de engenharia e gestão de projetos têm assumido papel central na estruturação dos empreendimentos, apoiando desde o licenciamento ambiental e a governança de CAPEX até a modelagem contratual, a engenharia de processos e a implantação industrial. A qualidade dessa estruturação é que determina se um projeto atrairá novos aportes, avançará para a construção ou permanecerá apenas como uma promessa geológica.
Por isso, e como consequência da entrada crescente dessas empresas no país, cresce a demanda por serviços especializados de engenharia, consultoria técnica, EPC e gestão de projetos e a tendência é de maior expansão. Essa expectativa é respaldada pelas projeções do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), que mapeiam investimentos recordes de US$ 21,3 bilhões destinados à cadeia de minerais críticos e à transição energética até 2030. Esse fluxo de capital produz um forte efeito multiplicador sobre o mercado de engenharia, absorvendo rapidamente capacidade técnica local para superar desafios regulatórios, tecnológicos e operacionais.
Profissionais brasileiros acumulam décadas de experiência em projetos de grande porte, em ambientes remotos e sob forte pressão regulatória, da mineração ao óleo e gás, da infraestrutura à siderurgia. Sabem antecipar gargalos, estruturar governança, gerenciar riscos e conduzir projetos em ambientes onde cada etapa exige precisão técnica e disciplina. São esses especialistas que definem se um projeto avança, atrai novos aportes e se torna uma operação sustentável, ou se ele se perde em atrasos, custos adicionais e frustrações.
A discussão sobre competitividade industrial ganhou ainda recentemente um marco definitivo com a sanção da Lei nº 15.506/2026, que instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). A nova legislação estabelece diretrizes claras para o mapeamento, o incentivo à pesquisa, o desenvolvimento tecnológico e a estruturação de cadeias produtivas completas no país. Ao consolidar instrumentos práticos de fomento e promover a integração entre os órgãos reguladores, o texto impulsiona a industrialização nacional e fixa mecanismos de segurança estratégica para assegurar a oferta interna de insumos essenciais à transição energética.
O Brasil tem reservas abundantes, demanda global crescente, capital estrangeiro disposto a investir, uma política pública voltada à agregação de valor e profissionais capazes de transformar potencial em operação. Mas a corrida global por minerais críticos é, na prática, uma disputa por capacidade de execução. As reservas atraem investidores. A engenharia transforma investimentos em projetos. E são os projetos que geram produção, industrialização e valor agregado. Nesse mercado, a vantagem competitiva está além da disponibilidade mineral; está também na capacidade de projetar, implantar e operar empreendimentos complexos com eficiência, disciplina e precisão.
(*) Marcio Tannure, Diretor de Mineração, Siderurgia, Metais e Infraestrutura da Timenow





























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