Engenharia sustenta a reativação da mineração de ouro brasileira
Por Antonio Toledo*
O ouro voltou a brilhar com força no cenário global. Observando a trajetória dos últimos dez anos no Trading Economics, o metal saiu de um patamar em torno de US$ 1.250 por onça em junho de 2017 para uma mudança estrutural de preços a partir de 2020, impulsionada por incertezas geopolíticas, políticas monetárias expansionistas e a busca mundial por ativos de segurança. Essa virada abriu espaço para o aumento expressivo dos investimentos a partir de 2021, consolidando o ouro como proteção em um ambiente de inflação elevada.
A partir de 2024, a valorização ganhou ainda mais velocidade, com o metal ultrapassando US$ 2.700 em 2025 e alcançando a máxima histórica de US$ 5.608 em janeiro de 2026, antes de se estabilizar na faixa atual de US$ 4.140-US$ 4.400. As projeções dos principais bancos internacionais seguem em curva ascendente: as estimativas variam entre US$ 5.500 e US$ 6.300 até o fim de 2026, sustentadas pela demanda institucional, pela tendência de desdolarização parcial em economias emergentes e pela oferta global limitada.
O resultado é a consolidação do ouro como ativo de proteção em um ambiente marcado por instabilidade e reconfiguração das cadeias econômicas. E, como sempre acontece quando o metal sobe, a mineração responde, reativando minas, atraindo capital e exigindo uma engenharia cada vez mais sofisticada para sustentar o ritmo de expansão. No Brasil, o impacto é evidente. Dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) indicam que o valor acumulado da produção beneficiada de ouro ultrapassa R$ 225 bilhões desde 2010.
Em 2024, os investimentos no setor somaram cerca de R$ 4,5 bilhões, sendo R$ 4 bilhões destinados à fase de lavra e R$ 441 milhões à pesquisa mineral, um sinal claro de que o país não apenas extrai, mas também investe para expandir sua capacidade produtiva. A produção nacional beneficiada chegou a mais de 1 milhão de quilos, confirmando que o ciclo atual não é apenas de valorização, mas de expansão real da atividade mineradora.
O setor mineral como um todo vive um momento histórico. A mineração brasileira faturou quase R$ 300 bilhões em 2025, um aumento superior a 10% impulsionado pela alta do ouro e do cobre. Esse desempenho coloca o país entre os dez maiores produtores minerais do mundo e reforça sua relevância estratégica na transição energética global, já que o ouro, o cobre e outros metais críticos são essenciais para tecnologias limpas, eletrificação e digitalização.
Mas o que diferencia o momento atual é a reativação de minas antes consideradas marginais. Com o preço elevado, jazidas de menor teor voltaram a ser economicamente viáveis, e projetos engavetados ressurgem com força. Entre 2010 e 2024, os investimentos na fase de lavra cresceram de cerca de R$ 900 milhões para mais de R$ 4 bilhões anuais, com picos a partir de 2021.
Esse movimento tem ampliado também a demanda por engenharia e gestão especializada. A reativação de minas, a abertura de novas frentes de exploração e a modernização de plantas exigem equipes técnicas maiores, mais qualificadas e capazes de lidar com operações cada vez mais complexas. Neste ambiente, o aquecimento do ouro não impulsiona apenas a produção mineral: ele movimenta toda a cadeia de engenharia que sustenta o setor.
O país vive, portanto, uma combinação rara: preço alto, capacidade instalada e novas fronteiras exploratórias. Esse movimento não se limita ao Brasil. No mundo, o setor mineral atravessa uma fase de reconfiguração. A China, maior produtora global, tem ampliado estoques estratégicos; a Austrália e o Canadá investem em mineração de baixo impacto ambiental; e países africanos, como Gana e Sudão, voltam a crescer com o ouro como principal ativo de exportação.
O resultado é um mercado aquecido, competitivo e cada vez mais dependente de tecnologia e governança, áreas em que a engenharia tem papel decisivo. A reativação de minas exige uma revisão completa de projetos de lavra, modernização de plantas de beneficiamento, adequação a normas ambientais mais rígidas e integração entre áreas técnicas que, muitas vezes, não dialogavam com a mesma fluidez no passado.
A engenharia é o eixo que permite transformar um ciclo de preços em um ciclo de produção sustentável. E, nesse contexto, a gestão de projetos deixa de ser um diferencial para se tornar uma necessidade. A mineração contemporânea é movida por governança, planejamento integrado, gestão de riscos e compliance.
A gestão de projetos traz previsibilidade a um ambiente naturalmente complexo, reduz riscos em um setor de alto investimento e integra engenharia, operação e sustentabilidade em um mesmo fluxo decisório. Sem isso, a reativação de minas se torna um processo errático, caro e vulnerável a interrupções. Com isso, torna-se uma operação eficiente, segura e economicamente sólida.
O boom do ouro também tem atraído novos players para o país. Segundo a ANM, há mais de 6.700 empresas com processos minerários ativos relacionados ao ouro, totalizando 21 mil processos em diferentes fases, da autorização de pesquisa à lavra. Esse dado é revelador: o ciclo atual não é apenas de extração, mas de planejamento e estruturação de novos projetos, o que reforça o papel da engenharia e da gestão de projetos como pilares do crescimento sustentável.
O endurecimento das regras de rastreabilidade do ouro, com a Lei 14.596/2023, também fortaleceu o mercado formal e reduziu brechas para o garimpo ilegal. Essa maior transparência regulatória tem atraído capital estrangeiro e ampliado a confiança dos investidores. Em mineração, previsibilidade jurídica vale tanto quanto o próprio minério. E o Brasil, ao oferecer um ambiente mais estável, se torna destino natural para novos empreendimentos.
O ciclo atual é, portanto, mais do que um reflexo de preços altos: é um movimento de reestruturação industrial. Ele combina tecnologia, governança e engenharia para transformar o potencial mineral brasileiro em desenvolvimento econômico real. O ouro impulsiona o presente, mas é a engenharia que vai sustentar o futuro. Com planejamento, o setor tem condições de transformar este ciclo favorável em um movimento consistente de modernização e desenvolvimento.
(*) Antonio Toledo é CEO da Timenow
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