Mina subterrânea da Atlantic Nickel avança com R$ 3,3 bi em investimentos e introdução de método inédito no Brasil

Apoiado por fundo bilionário da Appian, projeto subterrâneo adota técnica Sublevel Caving para dobrar teor de níquel processado e impulsionar eficiência energética, enquanto executivos alertam sobre pontos sensíveis de novo PL de minerais críticos no Senado

Por Conexão Mineral 01/09/2026 - 21:26 hs

Mina subterrânea da Atlantic Nickel avança com R$ 3,3 bi em investimentos e introdução de método inédito no Brasil
Executivos da Appian durante coletiva de Imprensa realizada em Belo Horizonte (MG)

A Atlantic Nickel e seu fundo controlador, a Appian Capital, detalharam na semana passada, em Belo Horizonte, o avançado estágio de desenvolvimento de seu projeto de mineração subterrânea de níquel. Com um investimento programado de R$ 3,3 bilhões (cerca de US$ 600 milhões), o empreendimento destaca-se pela maturidade de infraestrutura existente e pela introdução de uma tecnologia inédita de extração no Brasil: o Sublevel Caving.

Desenvolvido com especialistas trazidos do Chile, o projeto já conta com mais de 400 metros de túneis escavados em caráter de obras antecipadas (early works), financiados inteiramente com capital próprio do fundo, que detém cerca de US$ 5 bilhões de recursos para alocação global.

As informações sobre o projeto foram apresentadas pelos  executivos Ricardo Alves (Diretor Executivo da Graphcoa), Milson Mundim (Country Manager), Gilcimar Oliveira (Diretor de ESG e Pessoas)  e Francisco Carrasco (Diretor de Projetos, Subterrâneo) durante uma coletiva para a Imprensa.

Financiamento híbrido e estratégia de redução de riscos 

O modelo financeiro adotado para a expansão da Atlantic Nickel baseia-se em uma combinação clássica de capital próprio (equity) e dívida (Project Finance). Os executivos destacaram que, por se tratar de um fundo de private equity de grande porte, a parcela de capital próprio necessária para o empreendimento já se encontra totalmente garantida e disponível dentro do fundo. Atualmente, a companhia avança nos estágios finais do Estudo de Viabilidade Definitivo, com previsão de aprovação formal no segundo semestre deste ano. A conclusão servirá para obter a decisão final de investimento pelo fundo e para apresentar o projeto ao mercado internacional de crédito para a estruturação da dívida.

Para acelerar o cronograma e diminuir a percepção de risco por parte de grandes bancos de mineração internacionais (especialmente os europeus, além de agências de fomento dos EUA e o BNDES brasileiro), a Atlantic Nickel adotou a estratégia de obras antecipadas (early works). Utilizando capital próprio disponível, a companhia já iniciou a abertura do túnel subterrâneo — que já ultrapassou os 400 metros de extensão de um total planejado de 1.200 metros até o encerramento deste ano. Até o final do ano, o volume investido em obras antecipadas deverá situar-se entre US$ 30 milhões e US$ 40 milhões. Esta antecipação visa neutralizar riscos de cronograma antes que os contratos de dívida definitiva sejam assinados no último trimestre do ano.

Método Sublevel Caving

O principal diferencial tecnológico do projeto subterrâneo é a implementação do Sublevel Caving, uma técnica de lavra subterrânea de alta produtividade amplamente utilizada no exterior, mas inédita em território brasileiro. Para liderar a operação, a companhia trouxe do Chile o engenheiro especialista Francisco Carrasco. O método baseia-se em acessos subterrâneos ao corpo mineral sem a necessidade de rampas tradicionais, valendo-se de detonações massivas de minério controladas verticalmente. Esse processo provoca o desmoronamento sistemático e controlado da jazida à medida que os trabalhos avançam de cima para baixo.

A jazida apresenta dimensões imponentes, com profundidade de 900 metros, espessura corporal variando entre 40 e 80 metros e comprimento longitudinal que alcança ou supera os 300 metros. Segundo Carrasco, o Sublevel Caving permite uma lavra altamente seletiva, focando estritamente nas porções mais ricas do minério para atingir o teor médio projetado de 1,5% de níquel como recurso, mantendo a diluição em patamares competitivos. Trata-se de um dos métodos subterrâneos mais baratos disponíveis no mercado, o que viabiliza economicamente depósitos que em outras geografias não seriam atrativos. O projeto tem vida útil inicial estimada em 20 anos, porém já conta com recursos adicionais preliminares identificados que garantem pelo menos mais 10 anos de operação (segunda etapa, que começará a ser detalhada no próximo ano a partir de pesquisas em mais 300 metros adicionais de profundidade).

Logística sem caminhões e balanço de carbono 

Do ponto de vista logístico e operacional, a Atlantic Nickel desenhou o projeto subterrâneo para migrar rapidamente para um sistema sem caminhões (truckless). Embora a fase inicial e o aprofundamento acelerado contem com transporte rodoviário interno convencional, o projeto prevê a instalação subterrânea de um sistema integrado de britagem e correias transportadoras de subsolo. Com uma movimentação anual planejada superior a 6 milhões de toneladas de minério, o transporte por caminhões se tornaria economicamente inviável a longo prazo, consolidando a correia transportadora como a alternativa logística mais eficiente e barata.

A transição tecnológica gera ganhos diretos em sustentabilidade ambiental e eficiência de custos. Por iniciar a construção dos túneis a partir de uma cava a céu aberto pré-existente , o empreendimento possui um impacto físico de superfície (footprint) extremamente reduzido, sem necessidade de novas estruturas de superfície. Além disso, o teor do minério lavrado no subsolo será duas vezes maior que o atual, otimizando o balanço energético: ao alimentar a planta de beneficiamento existente com o dobro de níquel na mesma tonelagem de minério, a empresa utilizará a mesma quantidade de energia elétrica, bolas de moinho e reagentes químicos para produzir 60% a mais de concentrado de níquel. Esse conjunto de fatores posiciona a Atlantic Nickel no primeiro decil da curva de emissões global, aumentando significativamente a atratividade do produto final no mercado global junto a clientes finais focados em descarbonização.

Direitos minerais

Questionada sobre a estrutura contratual de sua área em relação à CBPM (Companhia Baiana de Pesquisa Mineral), a liderança confirmou que os direitos minerais pertencem de fato à CBPM. Sob uma modelagem comum de parceria pública, licitada pré-aquisição da Appian nos idos de 2006/2007, a Atlantic Nickel atua como operadora autorizada mediante arrendamento/contrato de royalties. 

Pelo arranjo regulatório, a CBPM realiza a prospecção inicial (early stage) e licita o direito de lavra, cabendo à operadora privada concluir a pesquisa de detalhe, financiar as obras de implantação, implantar o projeto e repassar os royalties devidos à estatal baiana.

Cenário regulatório nacional com o  PL 2780/24

Durante a apresentação, a diretoria da companhia avaliou com franqueza a tramitação regulatória dos minerais críticos no Senado Federal, com destaque para o Projeto de Lei 2780/24. Foi enfatizado que a estabilidade de regras é o ponto de partida fundamental para atrair e reter investimentos estrangeiros, regra universal que se aplica à mineração, à agricultura ou a qualquer indústria.

Os executivos manifestaram preocupações específicas a respeito do poder discricionário conferido a um comitê de controle previsto pelo PL. A exigência de autorizações de órgãos reguladores para transferências de controle de projetos e o poder de veto do comitê sobre contratos de comercialização futura criam, na opinião dos executivos, focos de instabilidade que acabam sendo vistos de forma negativa pelos investidores. Por outro lado, foram reconhecidos avanços significativos no PL 2780, tais como a criação de um fundo garantidor para apoiar empresas menores (juniores) que enfrentam barreiras de captação de recursos no mercado de capitais tradicional, e o estabelecimento de prioridade para os processos de licenciamento ambiental do setor de minerais de transição.

A falácia do valor agregado no processamento local 

Outro tema apontado pelos executivos como discutível envolveu as pressões políticas para que o processamento mineral seja realizado obrigatoriamente no Brasil para 'geração de maior valor'. A liderança da Appian Capital sugeriu uma análise econômica mais profunda, apontando os casos de Canadá, Austrália e Chile — nações mineradoras líderes, com altos níveis de PIB per capita, excelente qualidade de vida e sistemas educacionais de ponta, que não concentram esforços no processamento integral doméstico. A Austrália, por exemplo, é uma das nações mais ricas do mundo e não produz veículos ou bicicletas, exportando minérios brutos.

Explicou-se que o downstream nem sempre é a etapa de maior margem ou retorno sobre o investimento de uma cadeia produtiva global. No caso do níquel, os clientes downstream registram frequentemente margens financeiras inferiores às das mineradoras de extração primária. No cobre, a assimetria é ainda mais marcante: 80% do valor econômico da cadeia está concentrado no minério concentrado, enquanto a etapa de fundição (smelting) enfrenta margens deprimidas por excesso de capacidade produtiva ociosa ao redor do globo. Portanto, a corrida pela refinação compulsória representa uma simplificação econômica que não condiz com a rentabilidade real de mercado para a maior parte dos minerais.

Percepção social da mineração 

A empresa chamou a atenção para o entrave que representa a percepção negativa do setor de mineração por parte da sociedade brasileira. Mesmo o Brasil possuindo uma vocação mineral milenar, a sociedade não captura o valor real e a essencialidade da mineração em sua rotina moderna, essencial para a eletrificação e descarbonização global. A falta de compreensão popular e o não reconhecimento do valor do setor alimentam dificuldades de licenciamento social e ambiental que geram atrasos pesados em tempo e custo financeiro. Para os executivos, é um dever conjunto dos operadores, da mídia especializada e da sociedade divulgar o 'lado certo' e seguro da mineração moderna.

Por fim, a liderança desmentiu boatos de que o adiamento da inauguração de sua nova sede corporativa estivesse relacionado às discussões do PL 2780 ou instabilidades políticas. Segundo os executivos, trata-se de uma restrição estritamente legal de compliance: a legislação eleitoral impede a presença e o convite a figuras políticas durante o período de campanhas partidárias. A reforma do novo escritório corporativo encontra-se com 85% de progresso físico e deverá estar operacional por volta de 20 de setembro. O lançamento institucional definitivo ocorrerá  logo após o término do período eleitoral.


Destaques financeiros – 1S26

Receita Bruta de R$ 833 milhões, alta de 33% a/a
Receita Líquida com crescimento de 23% a/a
EBITDA Ajustado de R$ 339 milhões, aumento de 82% a/a
Custo caixa C1 de US$ 3,10/lb

Desempenho operacional

3,39 Mt de minério processado, com recuperação média de NiS de 84%
Teor de ROM de 0,29% de níquel sulfetado; concentrado de flotação com teor entre 12,5% e 13,4% de Ni
61.995 t de concentrado de níquel produzidas
7.980 t de níquel contido em concentrado
49.717 t de concentrado de níquel embarcadas para Canadá, Finlândia e China, além de subprodutos de valor