Lula 2027-2030: Cenário para o Setor Mineral 

Por Conexão Mineral 28/10/2026 - 19:36 hs
Foto: ABPM

Por  Luís Maurício Ferraiuoli Azevedo*  

A  reeleição  de  Lula  (51,79%  dos  válidos,  25/10/2026)  garante  continuidade  da orientação do Executivo para a mineração, mas sob um Congresso mais à direita e um ambiente institucional tensionado. Para o setor, o eixo de 2027 será a regulamentação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (Lei 15.506/2026), e não uma nova lei ou eventual revogação, como chegou a se prever. 

O  que  não  muda  deve  ser  conceito  de  soberania  sobre  recursos,  prioridade  ao beneficiamento  no  país  e  uso  de  incentivos  condicionados  a  contrapartidas.  O  que muda:  o  governo  dependerá  do  centro  para  aprovar  cada  pauta,  o  que  encarece mudanças que imponham custos ao setor produtivo e abre espaço para a entendimento organizado entre minerador e governo. 

Reação do mercado e câmbio 

O mercado havia precificado a vitória de Flávio Bolsonaro e reagiu à virada com o pior pregão  desde  a  pandemia.  Nesta  segunda-feira  (26/10),  o  Ibovespa  caiu  10%  nos primeiros minutos e acionou o circuit breaker — o primeiro desde 2020 —; chegou a recuar 16,7% (170,8 mil pontos) e operava em queda de cerca de 15,6% ao meio-dia. 

•  Câmbio  e  juros.  O  dólar  chegou  a  R$  5,60  (alta  de  ~12,6%)  e  swaps  longos subiram  quase  300  pontos-base.  O  Tesouro  cancelou  os  leilões  da  semana  e anunciou recompra extraordinária de NTN-F; o JPMorgan rebaixou o real e os juros brasileiros para marketweight. 

•  Leitura  fiscal.  Com  dívida  acima  de  80%  do  PIB  e  orçamento  engessado, investidores esperam juros reais elevados por mais tempo. A equipe econômica já  negocia  uma  PEC  para  ampliar  bloqueios  orçamentários,  e  a  escolha  do ministro da Fazenda será o primeiro teste de credibilidade, fala-se hoje no Vice-presidente  Geraldo  Alckmin  assumir  a  pasta  da  Fazenda,  e  numa  reforma ministerial aumentando e abrindo espaço para partidos aliados. 

•  Rotação setorial. Estatais lideraram as perdas (Banco do Brasil −31%, Petrobras −10%), enquanto exportadoras subiram com o dólar: Suzano ~8%, Embraer 6,6% e Vale 5,9%. 

Para a mineração, o efeito é duplo. O real mais fraco melhora margens de exportadores e reduz, em dólar, o custo de projetos com despesas em reais. Em contrapartida, prêmio de risco e juros mais altos encarecem o financiamento local e tornam o capital de risco mais  seletivo  —  impacto  maior  sobre  Juniors  e  projetos  pré-operacionais,  que dependem de captação. 

Ambiente institucional 

O governo terá base mais volátil que no terceiro mandato. A partir de fevereiro de 2027, o PL terá 121 deputados e 28 senadores — a maior bancada do Senado no início de uma legislatura desde 1988 —, contra 88 da federação PT-PCdoB-PV na Câmara. Nenhum partido  terá  maioria  isolada;  o  centro  (PSD,  União  Progressista,  Republicanos,  MDB) negociará apoio tema a tema. 

Alguns  Vetores  de  tensão  podem  afetar  a  previsibilidade  regulatória:(i)  Disputa  por receitas. Promessas de campanha (perdão de dívidas, Pé-de-Meia, SUS) pressionam o arcabouço fiscal; setores com renda mineral visível, como a mineração, entram no radar de medidas compensatórias; (ii) Janela de transição. Até 31/01/2027 o Congresso atual ainda vota; Alcolumbre sinaliza priorizar a PEC da Segurança. Pautas setoriais tendem a ficar para 2027, já com a nova correlação de forças. 

Para a mineração, o efeito é ambíguo: a base volátil dificulta aumentos de carga sobre o setor, mas também trava reformas estruturais favoráveis. 

Minerais críticos: a regulamentação deve ser nosso foco 

A  Lei  15.506/2026  foi  sancionada  sem  vetos  em  16/09/2026,  junto  com  o  Decreto 13.118/2026, que estrutura o CIMCE, vinculado à Presidência. A lei está em vigor, mas depende de regulamento para a lista oficial de minerais, o Fundo Garantidor (FGAM), o cadastro obrigatório de projetos (CNPMCE) e o programa de créditos fiscais (PFMCE, R$ 1 bilhão/ano entre 2030 e 2034). 

Pontos que concentrarão a disputa no segundo mandato: 

•  Poder do CIMCE sobre homologação de mudanças de controle e contratos de fornecimento com impacto geopolítico — risco direto para M&A, financiamento e offtakes de Juniors. 

•  Contrapartidas  financeiras  (aplicação  mínima  sobre  receita  bruta)  sem tratamento diferenciado para empresas pré-operacionais. 

•  Ausência  de  incentivo  à  fase  de  pesquisa  mineral,  embora  a  lei  a  inclua  no escopo da política. 

•  Geopolítica. O governo tende a avaliar a origem do capital acreditamos que não, mas fiscalizar quando este vier de governos estrangeiros, e certamente o destino da  produção;  um  bom  termômetro  foi  o  investimento  australiano  em  terras raras,  bem  recebido  pelo  próprio  Lula,  que  não  foi  tratado  como  hostil  no discurso de soberania por ocasião da promulgação da Lei de Minerais Críticos. 

Nas  conversas  tidas  pela  ABPM  com  à  Casa  Civil  posicionamos  que  o  setor  quer participar do texto de regulamentação. 

Grandes desafios legislativos 

A agenda mais sensível para o setor é talvez tributária, não regulatória: a pressão fiscal do  governo  encontra  na  renda  mineral  uma  base  visível,  esperamos  transmitir  que questões como:

O padrão provável: avanços seletivos, com o Congresso barrando aumentos amplos de carga, mas cedendo em medidas pontuais negociadas em troca de apoio ao Executivo. 

Definições estratégicas 

1.  Atuar no regulamento da PNMCE. Priorizar critérios objetivos e prazos para o CIMCE (controle acima de 50%, contratos acima de 50% da produção certificada) e isenção ou diferimento de contrapartidas para empresas pré-operacionais. 

2.  Aproximar  do  Congresso.  Com  38,7%  de  renovação  na  Câmara, reconstruir interlocução  nas  comissões  de  Minas  e  Energia  e  Infraestrutura  e  com  as lideranças do centro, que serão o fiel da balança. 

3.  Agenda  propositiva  com  a  ANM.  Trabalharmos  para  nomeação  dos  Novos Diretores e num plano de capacitação e cooperação, reforçando a segurança jurídica,  retomada  das  ofertar  e  manutenção  da  atividade  operacional fiscalizatória. 

4.  Trabalhar  junto  governo.  Buscar  enquadrar  industrialização,  beneficiamento local e geração de emprego, na construção de uma base produtiva diversificada. 

 (*) Luís Maurício Ferraiuoli Azevedo, Presidente do Conselho — ABPM